Terceiro dia da mostra de longas: “Luzeiro Volante” e “O Céu Sobre os Ombros”

Luzeiro Volante

Selecionado para competição no CineEsquemaNovo 2011, “Luzeiro Volante” é o primeiro longa-metragem realizado pelo poeta, ator e realizador paraibano Tavinho Teixeira. O filme, fruto das produções coletivas da cooperativa paraibana Filmes a Granel, é uma espécie de road movie e mostra um andarilho que tem fixação por água e energia elétrica.

Tavinho dedica o filme à sua filha, Mariah, que é atriz no longa, e conta que o projeto surgiu quando ela passou por um difícil processo de separação há cerca de um ano.

Tavinho Teixeira, diretor de "Luzeiro Volante"

O personagem central da trama é um funcionário de uma usina hidrelétrica que resolve abandonar seu ofício para se aventurar a esmo pelas ruas.

Tavinho não apenas dirige o filme, como também atua e contracena com sua própria filha em cenas um tanto ousadas e polêmicas, como a do beijo entre os dois. Segundo o diretor, as cenas que supõem momentos de incesto fazem parte de uma série de experiências e performances artísticas que ele e Mariah desenvolvem há bastante tempo como meio de investigar até  que ponto é possível explorar a amoralidade na arte.

“Vejo o ‘Luzeiro Volante’ como uma possibilidade de mudar o estado das coisas, de lançar o corpo na estrada e perceber nas tonalidades da luz os signos que permeiam o acaso, de dançar sob os fios de alta-tensão”, afirma o diretor.

Durante o debate, realizado após a sessão de exibição, com a presença de Fred Benevides e Ely Marques, realizadores que fizeram parte da equipe de “Luzeiro Volante”, Tavinho Teixeira expôs um pouco dos detalhes sobre o processo de “construção”  do filme.

O roteiro do longa parte apenas de um esboço, de um argumento, um personagem sem passado vagando pelo mundo ao acaso. Realmente o acaso e o caráter errante do personagem parecem ser os fios condutores de “Luzeiro Volante”. “Escolhíamos os planos e as locações na hora e então o acaso começou a fazer sentido, a criar potências, começamos a existir”, comenta o diretor.

Tavinho filmou, montou e finalizou o trabalho em diversos lugares (Vinhedo/SP, Foz do Iguaçu/PR, Fortaleza/CE e Rio de Janeiro/RJ), com a ajuda de várias pessoas. Um jogo, um mosaico que foi se construindo ao longo do processo.

O Céu Sobre os Ombros

O segundo filme da sessão competitiva de longas da terça-feira, dia 26, foi “O Céu Sobre os Ombros”, de Sérgio Borges, um dos mais aguardados do CEN 2011 em função das exibições e prêmios que vem ganhando em importantes festivais – na última edição do Festival de Brasília, levou melhor filme, melhor direção, melhor montagem (Ricardo Pretti), melhor roteiro (Manuela Dias e Sérgio Borges) e o prêmio especial do júri para o elenco. Além disso, teve sua estréia internacional em competição no 40º Festival de Rotterdam, foi exibido no 13º  BAFICI e no 29º Festival de Cinema do Uruguay, na semana passada, e foi selecionado para o Indie Lisboa 2011, que acontecerá em maio na capital portuguesa.

Primeiro longa-metragem de Sérgio Borges, integrante do coletivo Teia, de Minas Gerais, “O Céu Sobre os Ombros” apresenta as vidas “reais” de três personagens/atores sociais aos quais o realizador chegou depois de algum tempo de pesquisa: Everlyn Barbin (transsexual, prostituta e professora), Edjucu “Lwei” Moio (escritor congolês sustentado pela mãe e pai de um filho deficiente) e Murari Krishna (atendente de telemarketing, hare krishna e torcedor do Atlético Mineiro).

Em sua intencional mistura de documentário com ficção, o filme de Sérgio Borges mistura registros baseados no documentário observacional da vida de cada um dos personagens com momentos deliberadamente encenados – situações provocadas para que eles participassem, para alcançar resultados dramatúrgicos para o filme -, como a cena do bar, em que Murari e Edjucu se encontram e conversam sobre suicídio.

Sérgio Borges e Morgana Rissinger durante o debate posterior à exibição de "O Céu Sobre os Ombros"

No debate que se seguiu à sessão, Sérgio Borges comentou um pouco do processo de produção de “O Céu Sobre os Ombros”. Entre pesquisa e gravação, passaram-se seis meses a um ano antes das filmagens. A busca pelos personagens envolveu um critério essencial, que foi o interesse deles em participar do projeto, em ter suas vidas mostradas num filme – a discussão sobre auto-mise-en-scène foi um dos pontos altos do debate. Segundo o realizador, estavam todos bastante conscientes do que estavam fazendo ali, e a relação de cada um com a presença da equipe foi se alterando com o tempo de contato entre câmera e personagens.

Ainda que “O Céu Sobre os Ombros” seja permeado por momentos explicitamente ficcionais, o objetivo de Sérgio Borges foi estabelecer uma relação observacional com os personagens desde o início, quando da pesquisa que antecedeu as filmagens. Segundo o realizador, algo como “a câmera dentro da vida acontecendo: procedimentos de ficção, mas o tempo e a relação com os personagens próximos do documentário”.

Sala P.F. Gastal cheia durante o debate de "O Céu Sobre os Ombros"

Jamer G. Mello e Gabriela R. Almeida

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Sobre Cine Esquema Novo

Pensado desde 2001, realizado desde 2003, o Cine Esquema Novo é um festival que usa a palavra "cinema" no sentido mais amplo possível.

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