Entrevista: Dellani Lima e Marcelo Ikeda, autores do livro “Cinema de Garagem”

O CineEsquemaNovo 2011 terá nesta sexta-feira uma noite especial de lançamentos de livros (leia mais aqui). Um destes títulos é “Cinema de Garagem – Um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI”, de Marcelo Ikeda e Dellani Lima, este presente no CEN 2011 como convidado do festival. O livro apresenta e problematiza a produção audiovisual independente brasileira nos anos 2000, traçando um percurso bastante semelhante ao do CineEsquemaNovo, uma vez que o festival vem acompanhando o amadurecimento de realizadores e de um tipo de produção que, outrora considerada amadora, é atualmente a que melhor representa uma jovem cinematografia brasileira contemporânea exibida e premiada em festivais por todo o país e no exterior. Leia abaixo uma entrevista com os autores.

O subtítulo do livro é “Um inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI”. Tenho a impressão de que essa questão do afeto é essencial, uma vez que são filmes muito autorais e pessoais que convidam o espectador a uma relação de cumplicidade com os realizadores. Isso acontece?

A questão do afeto revela-se essencial, pois esses filmes são uma forma de se apresentar ao mundo, mais do que um produto ou uma mercadoria a ser comercializada (o cinema como vocação e não como profissão). Mas note que a palavra afeto é usada no subtítulo de nossa parte, como autores: nós autores oferecemos um olhar afetivo sobre essa produção. Acho importante que a crítica seja rigorosa, mas também um exercício afetivo. O afeto na crítica não é em hipótese alguma contrário ao rigor da análise.

Ao que vocês creditariam a reflexividade e o tom ensaístico de boa parte dessa produção referida no livro? Seria possível dizer que há uma “vocação” dos jovens realizadores de produzir filmes que trazem uma reflexão sobre o próprio cinema, sobre as formas de se produzir um filme e sobre as motivações que levam as pessoas a produzirem filmes?

 Não sei se propriamente uma vocação, mas é uma característica. São filmes naturalmente mais propícios a uma reflexão do lugar desses realizadores no mundo, que cruzam as fronteiras entre o documentário e a ficção, como o típico cinema contemporâneo, esgarçando os limites da ficção clássica. Nesse sentido, é natural que os filmes reflitam sobre a natureza do próprio cinema e da realização cinematográfica, pois são estruturados a partir das fissuras dessas demarcações que hoje parecem antigas (o documentário e a ficção).

Vocês enxergam aproximações estilísticas/estéticas entre os realizadores deste cinema brasileiro independente do século XXI? (ou seja, aproximações que vão além do modo faça-você-mesmo de produzir ou de uma “filosofia” de liberdade artística e reflexividade que parece subjacente aos filmes)?

 Acho que a grande mola mestra que movimenta essa produção é o desejo por uma juventude. Esse tema é um pouco delicado, precisaria de mais tempo para desenvolvê-lo. Outros temas: uma ambiguidade entre o ficcional e o documental. E ver a precariedade como potência, e não como falha a ser ocultada. Ainda: o filme como um processo mais do que como resultado final.

Qual a opinião de vocês sobre a Carta de Tiradentes e a circulação/distribuição de filmes autorais de baixo orçamento?

Apoio a carta. Vivemos um momento muito singular, em que Tropa de Elite 2 quebra todos os recordes fazendo 10 milhões de espectadores, e ao mesmo tempo existe um cinema de baixíssimo custo que não é lançado nos circuitos comerciais mas que tem grande repercussão crítica no país e de grande alcance internacional, ocupando festivais expressivos como os de Locarno, Rotterdam, Veneza, Cannes. As duas coisas não se contradizem ou se anulam; elas se complementam. O cinema é indústria e artesanato, e isso é indissociável. Acredito que as políticas públicas devem se abrir também para as novas possibilidades de produção. É possível hoje fazer filmes com grande qualidade estética com R$200 mil. É não só uma possibilidade mas uma realidade. Não acho que a produção do cinema verdadeiramente independente deve ser necessariamente feita sem recursos estatais. Acho que a política pública deve procurar cobrir todas as manifestações legítimas da sociedade, especialmente na área da cultura, então não vejo nenhuma contradição no apoio.

"Cinema de Garagem" está sendo vendido por R$ 10,00 no CineEsquemaNovo

Gabriela R. Almeida

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Sobre Cine Esquema Novo

Pensado desde 2001, realizado desde 2003, o Cine Esquema Novo é um festival que usa a palavra "cinema" no sentido mais amplo possível.

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